NEUROCIÊNCIAS
PSICOBIOLOGIA
Síndromes com repercussão na deficiência intelectual, distúrbios e
transtornos neuropsicobiológico.
TOMO II - CAPÍTULO IV
Conhecendo e
interpretando quadros sindrômicos específicos.
Sub Capítulo III -
Deficiência Auditiva.
Deficiência auditiva (também conhecida como hipoacusia ou surdez) é a perda parcial ou total de audição. Pode ser de nascença ou causada posteriormente por doenças. No passado, costumava-se achar que a surdez era
acompanhada por algum tipo de déficit de inteligência. Entretanto, com a
inclusão dos surdos no processo educativo, compreendeu-se que eles, em sua maioria, não
tinham a possibilidade de desenvolver a inteligência em virtude dos poucos estímulos que recebiam e que isto
era devido à dificuldade de comunicação entre surdos e ouvintes. Porém, o desenvolvimento das diversas línguas de sinais e o trabalho de ensino das línguas orais permitiram aos surdos os meios de desenvolvimento de sua
inteligência. Atualmente, a educação inclusiva é uma realidade em muitos países. Fato ressaltado na Declaração de Salamanca que culminou com uma nova tendência educacional e
social.
Anatomia
da Audição.
O órgão responsável pela audição é a
orelha (antigamente denominado ouvido), também chamada órgão vestíbulo-coclear
ou estato-acústico. A maior parte da orelha fica no osso temporal, que se
localiza na caixa craniana. Além da função de ouvir, o ouvido também é
responsável pelo equilíbrio. A orelha está dividida em três partes: orelha
externa, média e interna (antigamente denominados ouvido externo,
ouvido médio e ouvido interno).

Imagem: CÉSAR & CEZAR. Biologia. São Paulo, Ed Saraiva, 2002
ORELHA EXTERNA
A orelha
externa é formada pelo pavilhão auditivo (antigamente denominado
orelha) e pelo canal auditivo externo ou meato auditivo.


Todo o pavilhão auditivo (exceto o lobo
ou lóbulo) é constituído por tecido cartilaginoso recoberto por pele, tendo como função captar e canalizar os sons para a orelha
média. O canal auditivo externo estabelece a comunicação entre a orelha média e
o meio externo, tem cerca de três centímetros de comprimento e está escavado em
nosso osso temporal. É revestido internamente por pêlos e glândulas, que
fabricam uma substância gordurosa e amarelada, denominada cerume ou cera.
Tanto os pêlos como o cerume retêm poeira e micróbios que normalmente existem
no ar e eventualmente entram nos ouvidos. O canal auditivo externo termina numa
delicada membrana - tímpano ou membrana timpânica - firmemente
fixada ao conduto auditivo externo por um anel de tecido fibroso, chamado anel
timpânico.
ORELHA MÉDIA.
A orelha média começa na
membrana timpânica e consiste, em sua totalidade, de um espaço aéreo – a
cavidade timpânica – no osso temporal. Dentro dela estão três ossículos
articulados entre si, cujos nomes descrevem sua forma: martelo, bigorna e estribo. Esses ossículos encontram-se suspensos na orelha média, através
de ligamentos. O cabo do martelo está encostado no tímpano; o estribo apóia-se
na janela oval, um dos
orifícios dotados de membrana da orelha interna que estabelecem
comunicação com a orelha média. O outro orifício é a janela
redonda. A orelha média comunica-se
também com a faringe, através de um canal denominado tuba
auditiva (antigamente denominada trompa de Eustáquio). Esse canal permite
que o ar penetre no ouvido médio. Dessa forma, de um lado e de outro do
tímpano, a pressão do ar atmosférico é igual. Quando essas pressões ficam
diferentes, não ouvimos bem, até que o equilíbrio seja restabelecido.



ORELHA INTERNA.
A orelha interna, chamada labirinto,
é formada por escavações no osso temporal, revestidas por membrana e preenchidas
por líquido. Limita-se com a orelha média pelas janelas oval e a redonda. O
labirinto apresenta uma parte anterior, a cóclea ou caracol.
Este relacionada com a audição, e uma parte posterior -
relacionada com o equilíbrio e constituída pelo vestíbulo e pelos
canais semicirculares.


A cóclea é um
aparelho membranoso formado por tubos espiralados.


O diagrama da secção transversal (ao lado), mostra que a cóclea é
composta por três tubos individuais, colados um ao lado do outro: as escalas
ou rampas timpânica, média ou coclear e vestibular. Todos esses
tubos são separados um do outro por membranas. A membrana existente entre a
escala vestibular e a escala média é tão fina que não oferece obstáculo para a
passagem das ondas sonoras. Sua função é simplesmente separar os líquidos das
escalas médias e vestibulares, pois esses têm origem e composição química
distintas entre si e são importantes para o adequado funcionamento das células
receptoras de som. Por outro lado, a membrana que separa a escala média da
escala timpânica – chamada membrana basilar – é uma estrutura bastante
resistente, que bloqueia as ondas sonoras. Essa membrana é sustentada por cerca
de 25.000 estruturas finas, com a forma de palheta, as quais se projetam de um
dos lados da membrana e aparecem ao longo de toda a sua extensão – as fibras
basilares.

Imagens: GUYTON, A.C.
Fisiologia Humana. 5ª ed., Rio de Janeiro, Ed. Interamericana, 1981.
As fibras basilares próximas à janela
oval na base da cóclea são curtas, mas tornam-se progressivamente mais longas à
medida que se aproximam da porção superior da cóclea,. Na parte final da
cóclea, essas fibras são aproximadamente duas vezes mais longas do que as
basais. Na superfície da membrana basilar localiza-se o órgão de Corti,
onde há células nervosas ciliares (células sensoriais). Sobre o órgão de Corti
há uma estrutura membranosa, chamada membrana tectórica, que se apóia,
como se fosse um teto, sobre os cílios das células sensoriais.


Cóclea

1- ESCALA OU RAMPA MÉDIA OU COCLEAR – 2-
ESCALA OU RAMPA VESTIBULAR
3- ESCALA OU RAMPA TIMPÂNICA - 4- GÂNGLIO ESPIRAL - 5- NERVO
COCLEAR (PARTINDO DA MEMBRANA BASILAR)
Órgão de Corti.


IMAGEM INFERIOR:
GUYTON, A.C. FISIOLOGIA HUMANA. 5ª ED., RIO DE JANEIRO, ED. INTERAMERICANA,
1981.
O labirinto posterior (ou vestibular)
é constituído pelos canais semicirculares e pelo vestíbulo. Na
parte posterior do vestíbulo estão as cinco aberturas dos canais
semicirculares, e na parte anterior, a abertura para o canal coclear. Os canais
semicirculares não têm função auditiva, mas são importantes na manutenção do
equilíbrio do corpo. São pequenos tubos circulares (três tubos em forma de
semicírculo) que contêm líquidos e estão colocados, respectivamente, em três
planos espaciais (um horizontal e dois verticais) no labirinto posterior, em
cada lado da cabeça. No término de cada canal semicircular existe uma válvula
com a forma de uma folha - a crista ampular. Essa estrutura contém tufos
pilosos (cílios) que se projetam de células ciliares semelhantes às maculares.
Entre os canais semicirculares e a cóclea está uma grande cavidade cheia de um
líquido chamado perilinfa - o vestíbulo. No interior dessa cavidade
existem duas bolsas membranáceas, contendo outro líquido – a endolinfa:
uma póstero-superior, o utrículo, e uma ântero-inferior, o sáculo.
Tanto o utrículo quanto o sáculo contêm células sensoriais agrupadas em
estruturas denominadas máculas. Células nervosas da base da mácula
projetam cílios sobre uma massa gelatinosa na qual estão localizados minúsculos
grânulos calcificados, semelhantes a pequenos grãos de areia - os otólitos
ou otocônios. O utrículo e o sáculo comunicam-se através dos ductos
utricular e sacular.

Imagens: GUYTON, A.C. Fisiologia Humana. 5ª ed., Rio de Janeiro,
Ed. Interamericana, 1981.
A Surdez pode ser definida segundo três pontos de vista: ponto de
vista médico, educacional ou cultural.
Ponto de vista médico.
Em termos médicos, a surdez é categorizada em níveis do ligeiro ao profundo. É também classificada de deficiência auditiva, ou hipoacúsia. Os tipos de surdez quanto ao grau de perda auditiva:
- Perda auditiva leve: não tem efeito significativo no desenvolvimento desde que não progrida, geralmente não é necessário uso de aparelho auditivo.
- Perda auditiva moderada: pode interferir no desenvolvimento da fala e linguagem, mas não chega a impedir que o individuo fale.
- Perda auditiva severa: interfere no desenvolvimento da fala e linguagem, mas com o uso de aparelho auditivo poderá receber informações utilizando a audição para o desenvolvimento da fala e linguagem.
- Perda auditiva profunda: sem intervenção, a fala e a linguagem dificilmente irão ocorrer.
Interpretando
Conceitos.
Os conceitos gerais sobre surdez, classificações, técnicas e métodos de
avaliação da perda auditiva, características dos diversos tipos de surdez,
etc., são fundamentais para compreender as implicações da deficiência auditiva.
O deficiente auditivo é classificado como surdo, quando sua audição não
é funcional na vida comum e hipoacústico aquele cuja audição, ainda que
deficiente, é funcional com ou sem prótese auditiva. A deficiência auditiva pode ser de origem congênita,
causada por viroses materna doenças tóxicas desenvolvidas durante a gravidez ou adquirida, causada por ingestão de remédios que lesam
o nervo auditivo, exposição a sons impactantes, viroses, predisposição genética, meningite, etc. As hipoacústicas classificam-se em função do grau
da perda auditiva, sua ordem e localização. Quando a lesão se localiza no ouvido externo ou no médio é denominada
como deficiência de transmissão ou deficiência mista dependendo da intensidade
da lesão. Quando se origina no ouvido e no nervo auditivo é dita deficiência
interna ou sensorioneural (estágio mais agudo da deficiência). Mas o conceito
de perda auditiva nem sempre é suficientemente claro para a pessoa que se
depara pela primeira vez com o problema da surdez.O grau de perda auditiva é
calculado em função da intensidade necessária para amplificar um som de modo a
que seja percebido pela pessoa surda. Esta amplificação mede-se habitualmente
em decibéis, como já descrito anteriormente. Para o caso do ouvido humano, a intensidade padrão ou de referência
correspondem à mínima potência de som que pode ser distinguida do silêncio, sendo essa intensidade tomada como 0 dB. Uma pessoa com
audição normal pode captar como limiar inferior, desde -10 dB até + 10 dB.
Verifica-se essa progressão se dá de forma exponencial ou seja multiplicando-a
por dez. Logo, pressupõem-se que 10 dB tenha uma intensidade dez vezes superior
a 0 dB e 30 dB são de uma intensidade cem vezes superior a 10 dB. Dessa forma
entende-se melhor a grande diferença entre uma pessoa com uma perda de 60 dB,
que consideramos hipoacústico, e outro com 100 dB de perda. Tendo em
vista que 60 dB é mais ou menos a intensidade de um grito a 1,5 m de distância.
Portanto, compreendemos que a diferença entre uma perda de 60 dB e 100 dB.Á
última sendo considerada bem mais difícil, para o prognóstico de reabilitação.
Contudo a medida da perda auditiva não é suficiente para medir o real problema
de audição que uma pessoa apresenta. Faz-se necessário mensurar também qual o
espectro de freqüência que está afetado pela surdez. Considera-se que as perdas
auditivas nas freqüências baixas são mais prejudiciais do que as perdas nas
freqüências altas. "Para compreendermos a causa disto teremos de analisar
a relação entre a freqüência de um som e o tom com que este som se
percebe". (CRYSTAL, 1983). A freqüência de um som é medida em ciclos por
segundo ou Hertz (Hz). O ouvido humano percebe sons nas freqüências entre 20 Hz e
20.000 Hz. Entretanto a resposta perceptiva ao estímulo sonoro é
denominada tom. Porém não há uma relação entre a escala de tons e a escala de
freqüências. Mas, podemos tomar como parâmetros a escala de tons. Onde se
compara o tom de uma nota musical a exemplo a nota "lá" que poderá
apresentar um grau de entonação inferior ou superior dentro da mesma nota
"lá". Essa variação denomina-se uma oitava. "Ora bem, percebe-se
como uma oitava superior a um tom dado, o som, em termos físicos, dobra a
freqüência do primeiro. Desta forma, embora entre 2000 Hz e 4000 Hz haja uma
distância física de freqüência menos do que entre 100Hz e 2000Hz, porém à
distância perceptiva de tons é muito maior". (FRY et. al., 1982).
Comparando esses valores percebemos que entre 2000 Hz e 100 Hz há
mais de quatro oitavas, porque de 2000 Hz para 1000 Hz há uma oitava,
ou seja, a metade da sua freqüência. Por tanto de 2000 Hz para
1000 Hz há uma oitava, de 1000 Hz para 500 Hz também há uma
oitava, de 500 Hz a 250 Hz há outra e de 250 Hz a 125 Hz há
outra. Entendemos agora por que as perdas auditivas nas freqüências baixas são
de muito pior prognóstico do que as perdas nas altas freqüências. Para um
diagnóstico correto de uma surdez é preciso fazer uma exploração audiométrica
do grau de perda por relação com um espectro de freqüência que vá pelo menos de
125 Hz a 4000 Hz, já que são estas as freqüências mais utilizadas na
fala humana.(CASANOVA, 1988). Outro problema que deve ser levado em
consideração e a relação entre o limiar auditivo e o limiar doloroso, de forma,
a saber, qual o tipo de resíduo auditivo que poderá ser aproveitado para a
reabilitação indivíduo surdo. O limiar auditivo corresponde ao nível de
intensidade necessário para que a pessoa surda perceba o som e este limiar pode
ser diferente em cada freqüência. O limiar doloroso é o ponto em que a intensidade
sonora produz dor à pessoa. A distância que vai do limiar auditivo ao limiar de
dor é o que se chama de resíduo auditivo utilizável.
Entendendo
a Classificação.
A deficiência auditiva pode ser classificada como: deficiência de
transmissão – quando o problema se localiza no ouvido externo ou no ouvido
médio; deficiência mista – quando o problema se localiza no ouvido médio. E
deficiência interna ou sensorioneural – quando se origina no ouvido interno e
no nervo auditivo. As principais patologias do ouvido humano são: as ligadas à membrana timpânica, a
deficiência de transmissão sonora no sistema tímpano-ossicular, a rigidez nos
ligamentos de suporte ossicular, a timpanoesclerose, a fixação do martelo, a
ausência no reflexo estapediano, a paralisia do nervo do músculo estribo, a
complacência da membrana timpânica ou a sua rigidez, a lesão retrocloclear e a
surdez psicogênica que é um dos distúrbios psicogênicos. A impedância acústica
do ouvido médio é um tipo comum de patologia. Pode ser definida como a
resistência que a mesma oferece à energia sonora que penetra no conduto
auditivo externo. E há ainda as patologias ligadas a Trompa de Eustáquio apresentando-se ou muito aberta ou obstruída e causando
sintomas como autofonia e a percepção sonora da respiração pelo indivíduo.
Classificação por origem da surdez.
Os portadores de surdez patológica, normalmente adquirida em idade adulta;
E aqueles cuja surdez é um traço fisiológico distintivo, não implicando,
necessariamente, em deficiência neurológica ou mental; este é o caso da maioria
dos surdos congênitos.
Classificação por forma de comunicação.
Surdos oralizados: aqueles que se comunicam utilizando a
língua oral e/ou escrita. Surdos sinalizados: aqueles que se comunicam utilizando alguma
forma de linguagem gestual. Surdos bilíngues: aqueles que utilizam ambas as formas de
comunicação.
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