A psicanálise do autismo.
A psicanálise ao longo de sua historia com o
autismo vem promovendo possibilidades de transformação da técnica psicanalítica
para o tratamento do sujeito autista, diferentemente da abordagem
cognitivo-comportamental, que vem trabalhando o autismo com seus sintomas e
suas estratégias familiares para que se consiga melhor entender essa síndrome.
O conceito de autismo é o mesmo nas duas abordagens, o que difere é o
comprometimento das diferentes técnicas de tratamento. Por uma vertente, são
abordados os sintomas do autismo e suas conseqüências na família. Pela outra, é
enfocado o sujeito. Esse seguimento escrito tem por objetivo realizar uma
pequena síntese de alguns casos clínicos divulgados pela abordagem
psicanalítica. Assim, iniciaremos, então, citando alguns terapeutas que
publicaram alguns casos, como Klein, Tustin, Laznik-Penot, Tafuri e Seincman.
Esses autores demonstraram, através de suas experiências clinica, a capacidade
de um atendimento diferenciado na técnica psicanalítica. No caso “Dick”,
Melanie Klein (1930), relata ter recebido a criança com o diagnostico de
demência precoce aos quatro anos de idade, refere-se a ele como uma criança
carente e indiferente à presença materna, entretanto, relata uma afetividade de
Dick com a babá. A ausência de relação simbólica, segundo Klein, levou a
terapeuta à transformação da técnica sugerindo o “jogo simbólico”. Outra terapeuta que vem de formação
kleiniana, entretanto, não seguiu a técnica do jogo simbólico, foi Tustin
(1990) que se refere ao “buraco negro” que representaria a separação entre
John, um garoto de três anos e meio, e sua genitora, pois a psicanalista considera
que a criança sentia-se “grudada na mãe”. Tustin descreve esse fenômeno como
uma identificação adesiva. Uma representação extremamente dolorosa seria,
portanto, a sensação de separação da mãe. Laznik-Penot (1990) trabalhou com
outra técnica com seu paciente Halil de quase dois anos, a “técnica de
tradução”. Dirigida diretamente à criança com seus genitores, essa técnica
consiste na tradução da produção da criança como um simbolismo pré-existente.
Propiciando que a mãe reencontre-se com a “loucura necessária às mães” citada
por Winnicott, a qual seria a capacidade da mãe de interpretar ou traduzir as
necessidades da criança mesmo que esta ultima não deixe claro. A proposta de
Tafuri (2000) é justamente possibilitar o entendimento da diversidade do atendimento
a criança autista. Publicou o caso chamado de Maria, menina que tinha três anos
quando foi encaminhada com o diagnostico de autismo infantil precoce. Foi
realizado um trabalho analítico com a criança e com seus genitores, o
atendimento com a criança, munido com uma alta carga afetiva, com contato
corporal, baseado numa identificação quase mãe-bebê. O que marca esse episódio
de analise é a capacidade da analista de se identificar com á angustia do
paciente e torná-lo um tipo de filho analítico, que seria uma nova proposta de
tratamento da psicanálise. Essa perspectiva de tratamento com a criança autista
converge sobre o mesmo foco do caso clinico divulgado por Seincman (1997).
Lucas, um menino de cinco anos, encaminhado pela fonoaudióloga que desistira de
trabalhar com a criança por ser autista. A partir do tratamento de Lucas, essa
autora promove uma modificação no tratamento psicanalítico e chama essa
novidade de “aposta antecipatória”. Durante o primeiro encontro, ao chamamento
da terapeuta, o pequeno agarra-se na mãe e no segundo chamado agarra-se à
terapeuta. Relata que a impressão foi de que a criança queria manter-se colada
a ela. Relata também que os encontros não se restringiam ao garoto, mas também
aos genitores. O pai, em um desses encontros, relata sua divida com o filho e a
esposa. A conduta da genitora da criança, segundo a terapeuta era rígida e
exigente. A mãe que com a ajuda da
terapia começa a entender alguns gestos de Lucas. Seincman durante os seus
relatos fala sobre a melhora de Lucas. O tratamento propiciava à criança a
inserção familiar, entretanto, para promover essa aposta, a terapeuta trabalha
com um sujeito pré-existente que seria Lucas. Sua aposta consistia na
possibilidade de trazer o sujeito Lucas da ausência para se tornar uma criança
presente, foi nessa aposta que Lucas passou a torna-se um filho psicanalítico,
e foi nessa sensibilização empática com o paciente que propiciou um tratamento
bem sucedido na abordagem psicanalítica. Creio que é prudente sugerir que a
clinica psicanalítica, é uma “clinica mutante” para a singularidade do sujeito
autista; cada paciente é visto com o seu conteúdo, sem receber estereótipos que
o tornem comum. As diferentes técnicas convergem no mesmo foco a “singularidade
do sujeito”, suas adaptações permitem a família ver a criança autista com suas
necessidades e angustias, trazem à família a possibilidade de entendê-lo na sua
essência, aceitando como membro ativo da sociedade familiar e não como
portadores de autismo que promove efeitos e componentes estressores no âmbito
do lar
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