Conceito de psicose.
Na
psicose, o id se encontra como fator predominante de influência e,
necessariamente, há perda
da realidade, mesmo que em intensidades e momentos variados. Possuem dois
aspectos principais, um referente à despersonalização, que diz respeito aos
conhecimentos do individuo sobre si mesmo, seu próprio eu; e, o outro aspecto
se refere à desrealização, que é o conhecimento do indivíduo sobre o mundo.
Segundo Freud, 1923, a psicose seria um conflito do ego e com realidade
externa. Nela, há uma predominância do eu, pois o ego cria um novo mundo
interno e externo de acordo com os impulsos do id. Havendo um afastamento da
realidade devido a alguma frustração intensa do id. Na medida em que há
tentativas de restabelecer nova relação com a realidade, elas se dão sem
restrições ao Id, por meio do imaginário, delírios e alucinações. O delírio vem
como uma tentativa de cura ou preenchimento dessa realidade que não pôde ser
suportada. O Ego constrói um novo real
de
acordo com os impulsos do Id. Em uma alucinação auditiva, por exemplo, o
sujeito ouve seu próprio íntimo, seus pensamentos projetados em vozes. As
psicoses podem ser divididas em subgrupos, há aquelas que possuem causas
orgânicas e as funcionais que não possuem, há também as psicoses psicogênicas
onde há um fator psicodinâmico desencadeante. A esquizofrenia também pode ser
considerada um subtipo de psicose crônica. A esquizofrenia é considerada um
tipo de psicose crônica onde há distorções das emoções, pensamentos e percepção
da realidade, podendo haver delírios e alucinações auditivas e visuais. Menos
de 1% da população possui diagnóstico de esquizofrenia depois dos 18 anos,
inferior a essa idade, é considerado como “esquizofrenia de inicio precoce” , e
antes dos 13 anos é considerado “esquizofrenia de inicio muito precoce” devido
a raridade da ocorrência na infância. Há divergências entre os diversos autores
sobre a validade de um diagnóstico de esquizofrenia durante
a infância. Uma vez que o desenvolvimento não está finalizado, não há como
formalizar um diagnóstico, pois os quadros do desequilíbrio apenas se
configurarão na fase adulta. Diagnosticar um desequilíbrio mental crônico na
infância apenas estigmatização as crianças prejudicando seu desenvolvimento,
afirma essa linha de autores. Kanner (1943) utilizou o termo de autismo que
havia sido empregado por Bleuler, mas com outro sentido. O
Autismo tem sido campo fecundo de produção acadêmica, devido, principalmente, à
sua complexidade que não permite um consenso no atual momento do
desenvolvimento das ciências; muito pelo contrário, as controvérsias que se
encontram nos textos a esse respeito são notórias, desde a definição ontológica
até o estabelecimento de sua etiologia e propostas de intervenção.
No
pensamento de Kupfer (2000):
“o
autista do neurologista não é o autista do psicanalista”.
No
DSM IV (APA, 1994), bem como em outros dos principais sistemas diagnósticos, os
critérios têm se baseado em três domínios, delineados na obra de Kanner
(segundo Bosa & Callias, 2000), o pioneiro nos estudos do autismo:
a) prejuízo qualitativo
na interação social;
b) prejuízo qualitativo
na comunicação verbal e não-verbal, e no brinquedo imaginativo;
c) “comportamento e
interesses restritivos e repetitivos” (Bosa & Callias, 2000).
Neste
manual(DSM), o autismo é incorporado à categoria dos transtornos
invasivos do desenvolvimento (TID), que reúne
transtornos bastante diferentes entre si, sendo que Klin (2007) aponta como
fator comum a “interrupção precoce dos processos de sociabilização”, a qual tem
por conseqüência “uma interrupção dos processos normais de desenvolvimento
social, cognitivo e da comunicação”. Podemos até sugerir a possibilidade de que
estes transtornos estejam relacionados na forma de um - continuum - autístico,
não estando distintos por “fronteiras absolutas” (Klin, 2007). Kupfer (2000)
critica a classificação abrangente, que desconsidera as peculiaridades
nosológicas dos diferentes transtornos agrupados sob os TIDs, agrupando
indistintamente “as crianças que eram anteriormente classificadas como
psicóticas e autistas, não importando as causas admitidas”. Tenho comentado
muito aqui, e não eram minha intenção, discutir ou sugerir os aspectos
Psicanalíticos da questão. Porém fiquei bastante curioso na palestra da
Professora Maria Eugênia Nabuco, e concordo que sob o ponto de vista da
psicanálise, a diferenciação de autismo das demais psicoses infantis
é evidentemente radical, segundo afirma Ledoux (1989, cit em Kupfer, 2000). O
autor ressalta que se trata de uma distinção básica em nível do “funcionamento
mental, dos mecanismos em jogo”. Kupfer (2000) aponta que Jerusalinsky também
defende essa visão, considerando necessário distinguir-se o autismo como uma
quarta estrutura clínica, além das três clássicas propostas por Lacan: neurose,
psicose e perversão:
“No que se refere à
lógica que articula a posição do sujeito a respeito do significante, eu diria
que 'entre psicose e autismo não há nenhuma identidade de estrutura, porque
num caso se trata da forclusão e no outro se trata da exclusão'. É evidente
que no campo lacaniano não há unanimidade neste ponto, porque há quem considere
(segundo a lógica que tome como referente) a exclusão como um caso particular da forclusão, mas esse
não é o meu ponto de vista. 'A diferença entre forclusão e exclusão consiste
em que, no caso da forclusão se produz uma inscrição do sujeito numa posição
tal que esta inscrição não pode ter conseqüências na função significante. No
caso da exclusão não há inscrição do sujeito'; no lugar onde a inscrição
deveria se encontrar se encontra o Real, ou seja, a ausência de inscrição. Esta
diferença radical de estrutura conduz a efeitos clínicos observáveis”
(Jerusalinsky, 1993, cit. em Kupfer, p. 63. Grifo nosso).
Espero
não está errado, mais interpreto essa visão de Jerusalinsky, traduzindo em
termos mais acessíveis: “no autismo, falha
a função materna; na psicose, falha a função paterna”. Nesse
sentido, Bosa e Callias (2000) citam que, desde os anos 70 já havia o
reconhecimento, por parte de alguns autores, da necessidade de se distinguir as
“severas desordens mentais, surgidas na infância, e as psicoses cujo
aparecimento se faz mais tarde”, de forma que essa parece ser a tendência
contemporânea. Muitos psicanalistas aceitam que a etiologia do autismo também
pode afastá-lo das demais psicoses. Alvarez e Tustin são mencionados por Bosa
(2000) como exemplo de autores que levam em conta a possibilidade de que os
fatores psicogênicos do autismo não se apliquem a todas as crianças nesta
condição, sendo importante considerar também os fatores neuroquímicos. Essa
visão é condizente com o que defende Kupfer (2000), ao dizer, por exemplo, que
nenhum psicanalista que se preze ousaria ignorar o fato de que o bebê é, antes
de qualquer coisa, um “conjunto de nervos”. Eu creio na possibilidade de que o
bebê venha ao mundo incapaz de absorver os investimentos libidinais da mãe,
desmentindo assim a falácia que pretende que a psicanálise classifica as mães
de autistas como necessariamente “frias” ou incompetentes. Pelo contrário,
existe sim a possibilidade de que mães perfeitamente preparadas tenham filhos autistas
dentro da lógica psicanalítica – ainda que haja discordâncias, tais como
Bettelheim (Bosa, 2000). No outro pólo desta discussão, Margareth Mahler
defendia que o autismo é um subgrupo das psicoses (Bosa & Callias, 2000;
Kupfer, 2000). Ela define os conceitos de psicose autística e psicose
simbiótica, sendo que, na primeira, a mãe não é vista como algo externo e não é
investida libidinalmente pela criança. Na psicose simbiótica, ao contrário,
existe uma representação simbólica da mãe, porém fusionada ao self. A partir de
1951, no entanto, a clara distinção entre essas duas categorias deixa de
existir na teoria de Mahler, que passa a ver um espectro de traços autísticos e
simbióticos nas psicoses infantis (Kupfer, 2000). Melanie Klein, pioneira no
tratamento das psicoses infantis, não chegou a distinguir o autismo da
esquizofrenia precoce, porém reconheceram nas crianças autistas características
“qualitativamente diferentes das encontradas em outras crianças psicóticas”
(Kupfer, 2000). Novamente me sinto influenciado pela “Teoria dos Laços Sociais”
sugerida pela Professora Doutora Maria Eugênia Nabuco. E recomendo uma reflexão
em torno dos aspectos teóricos e práticos:
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